Nota sobre a tragédia do Museu Nacional

Uma tragédia de proporções mundiais. Esse é o sentimento e a compreensão diante do incêndio que destruiu na noite de domingo (02/9) o Museu Nacional, localizado na nossa vizinha Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão. Por ironia do destino justamente no ano de seu bicentenário – o mais antigo museu do país, fundado por Dom João VI em 1818, ainda no Campo de Sant'Anna, e transferido para São Cristóvão em 1892.

Infelizmente uma tragédia bastante anunciada – e negligenciada.

Muito mais do que abrigo de peças únicas da construção da história brasileira, o museu apresentava ao grande público parte da história do planeta, quiçá do universo, desde a Pré-História. Porém, o que se via nas exposições, ricas em valor afetivo para a população fluminense, não somava mais do que 1% de seu todo grandioso acervo.

A grande maioria circulava em torno das pesquisas científicas, conduzidas e lecionadas pela nossa instituição irmã, a UFRJ, que administra o museu desde 1946. As chamas que consumiram as mais de 20 milhões de peças do acervo destruíram por completo anos e anos de pesquisas ímpares. Algo irrecuperável para as ciências.

Embora a Polícia Federal ainda conduza as investigações sobre as causas do incêndio, a tragédia da Quinta da Boavista não configura um mero acaso.

 

As políticas públicas para educação e pesquisa sofreram grandes contingenciamentos nos últimos anos, culminando na Emenda Constitucional 95/2016 – a EC do atual governo golpista, que congelou por 20 anos os limites de investimentos em áreas vitais como educação, cultura e saúde.

A política de austeridade de Temer anuncia anos sombrios para a memória do país. O incêndio é um reflexo disto: até o início de setembro o Museu Nacional recebeu para manutenção um repasse de apenas R$ 58 mil (a verba anual deveria ser de R$ 520 mil), valor irrisório se comparado por exemplo aos aumentos recebidos por cargos públicos dos Três Poderes.

Além disto, as universidades públicas não gozam de autonomia universitária. Mantendo assim o orçamento vinculado ao Poder Executivo, que sistematicamente sucateia a educação como um todo, com repasses cada vez menores – e que inviabilizam as condições minímas inclusive de segurança.

E, por isso, a continuidade destas políticas predatórias pedem um basta com urgência.

As estruturas do Palácio de São Cristóvão, erguido em 1803, ainda seguem de pé. Bem como a placa com inscrição datada de 1972, localizada logo na entrada principal, que clama: “Todos que por aqui passem protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir seu próprio futuro”.

Com muito custo, o fogo se apagou nesta triste segunda-feira, mas ainda arde na revolta com o descaso recorrente à memória da humanidade. É preciso transformar o nosso luto em luta. Não apenas pelo atual e delicado momento do país, mas também pelas futuras gerações – de Luzias à Bendegós, lutaremos.

Toda solidariedade em especial à comunidade acadêmica da UFRJ e aos funcionários do Museu Nacional.

Asduerj