Uerj é espaço para homenagem a lutadores pelos Direitos Humanos

 

Aconteceu no dia 2 de abril no Teatro Odylo Costa Filho, o Teatrão da Uerj, a entrega da 30ª Medalha Chico Mendes. O evento promovido pelo Grupo Tortura Nunca Mais e outras entidades ligadas à luta pelos Direitos Humanos contou este ano com o apoio da Asduerj.

A Asduerj foi uma das entidades homenageadas com a Medalha Chico Mendes no ano de 2017. Este ano a Uerj foi escolhida para sediar o evento por ter se constituído “como espaço de defesa do ensino público, gratuito, de qualidade e de luta contra o sucateamento praticado pela política educacional do governo”, segundo uma das entidades organizadoras da 30ª Medalha.

Veja vídeo com a participação da diretora da Asduerj Deborah Fontenelle, na abertura do evento:

A Medalha Chico Mendes de Resistência é promovida desde 1989 pelo Grupo Tortura Nunca Mais. Sua criação foi uma resposta à provocação do Comando Regional do Leste, que concedeu a Medalha do Pacificador (leia-se Medalha do Repressor) a membros do aparato repressivo da ditadura militar (1964 – 1985). Desde então, todos os anos, no dia 1º de abril, cerca de dez movimentos sociais e defensores dos direitos humanos recebem a Medalha Chico Mendes de Resistência.

Leia o Manifesto divulgado pelo Grupo Tortura Nunca Mais, duranta a realização do evento.

Em 2018, o prêmio foi concedido a 12 entidades e personalidades que se destacaram na defesa dos direitos humanos. Entres estes, lutadores como o Comandante Paulo Mello Bastos, que com seus 100 anos de idade fez questão de estar presente no Teatro da Uerj, ou como a militante do MST Fabiana Braga, de apenas 22 anos de idade. Entidades representativas de diversos movimentos, como a Ocupação Manuel Congo, na luta pelo direito à moradia, ou a Casa Nem, espaço de sobrevivência, luta e resistência das comunidades LGBTQIs.

Os participantes da 30ª Medalha Chico Mendes também acenderam luzes para Marielle e Anderson, em uma homenagem a vereadora e ao motorista que aconteceu neste dia em diversos locais do mundo.

 “O Sol há de brilhar mais uma vez”, veja a apresentação do cantor Andre Gabrois ao final do evento. 

 

 Quem são e o que disseram os 12 homenageados pela Medalha Chico Mendes de Resistência

Comandante Paulo Mello Bastos (sindicalista e piloto de avião que garantiu a entrada de João Goulart no Brasil depois da renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Foi perseguido e cassado pela ditadura. Tem 100 anos de idade):

“Estou com meus 100 anos e satisfeito. Em lugar de estar escondido, fugindo da polícia, estou sendo homenageado por pessoas queridas, que se não me conhecem fisicamente conhecem um pouco da minha história, da minha participação na luta pela liberdade e pelo crescimento do nosso país. Enquanto tiver sáude e movimento, podem me dispor para participar de toda a movimentação de liberdade do nosso povos.”

 

Fabiana Braga (presa no Paraná por ser membro do MST, acusada de terrorismo e organização criminosa. A jovem militante tem 22 anos de idade.)

A Medalha Chico Mendes “ao prestar homenagem aos lutadores e lutadoras sociais de movimentos e entidades também mantém viva a memória de violação a direitos humanos sofridos por trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade cujo culpados ficam impunes. É também uma forma de lutar contra tais violações e evitar que não se repitam. O contexto de perseguições enfretado pelo MST, que ocasionou as prisões de nossos companheiros e companheiras se apresenta como uma situação grave de violações dos direitos humanos.

 

- Mãe Meninazinha Ilê Omolu Oxum (Candomblecista que, ao longo de cinquenta anos, tem resistido bravamente às perseguições e às violências sistemáticas praticadas pela intolerância religiosa do Estado e do fundamentalismo cristão).

 “A nossa luta é contra o racismo religioso. Fomos torturados alguns anos atrás, quando a polícia adentrava nossos terreiros, agredia nossos pais e nossas mães, destruiam nosso sagrado, roubavam nosso sagrado, que até hoje está no Museu da Polícia. Hoje, somos torturados por um grupo de fanáticos, que invade nossas casas, que destrói os nossos sagrados. Enquanto Deus-Oxalá nos der força, vamos lutar e resistir, como temos resistido até agora. Nossa religião é de resistência. Libertem o nosso sagrado!”

 

- Ana Maria Tellechea (promotora do Uruguai que investigou assassinatos de presos(as) políticos(as) levando à responsabilização de agentes da ditadura uruguaia.)

A promotora narrou em espanhol toda a sua luta processual para condenar os responsáveis por assassinatos e desaparecimentos políticos, além de batalhar com as famílias para descobrir onde estão os corpos dos seus familiares.

 

 

- Ilma e Rômulo Noronha (presos políticos durante a ditadura, guerrilheiros da Ação Libertadora Nacional (ALN), como informou a militante do GTNM Cecília Coimbra durante o evento, Rômulo foi o primeiro preso político a denunciar publicamente em outubro de 1980 – ainda em pleno período da ditadura – o psicanalista, assessor da tortura, Almícar Lobo).

O ser humano tem a possibilidade de, mesmo nas condições mais difíceis, resistir. Quando estávamos na Ilha Grande, em condições carcerárias as mais difíceis, encontramos uma trincheira de luta também. Uma luta pela liberdade, pela democracia e para que tenhamos uma sociedade mais justa e igualitária. O mesmo pau de arara que nós, filhos da classe média, fomos submetidos durante a ditadura militar, os negros escravos já eram submetidos. Tortura sempre existiu nesse país, sempre existiu formas de violência racistas, misóginas, contra todo tipo de organização.”

 

- Cosme Alves Neto (in memoriam)(preso político durante a ditadura. Transformou a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em espaço de resistência contra a ditadura. Foi programador do Cinema Paissandu).

Sua viúva, Glória Barbosa, recebeu a medalha em homenagem a Cosme Alves e Neto e também presenteou o Grupo Tortura Nunca Mais com um livro sobre ele, organizado por ela e pela professora aposentada da Uerj, Maria Luíza Tambellini. Também foi doada cópia do filme “Tudo por amor ao cinema”. Glória informou ainda que o acervo de Cosme foi doado ao Departamento de História da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, na cidade de Mossoró. “Instituição que como a Uerj enfrenta extremas dificuldades”, ressaltou.

 

Jaime Petit (in memoriam) – desaparecido em 1973, juntamente com seus dois irmãos (Lúcio e Maria Lúcia), na Guerrilha do Araguaia. Era militante do PCdoB:

Mais de 140 desaparecidos no Brasil, vítimas da ditadura militar. A corte extrapolou o caso Araguaia, mas até agora continuamos clamando por justiça. Vamos resistir até que nos sejam devolvidos os corpos e a justiça seja feita”, afirmou a irmã de Jaime ao receber a Medalha.

 

- José Barreto (Zequinha - in memoriam – militou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e no Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8). Foi executado pela ditadura em 1971, juntamente com Carlos Lamarca, em Brotas de Macaúbas/Bahia) Seu irmão, que recebeu o prêmio, saudou o Grupo Tortura Nunca desejando perenidade à sua luta: “Que possamos garantir que não haja aquele país nunca mais e que não haja tortura nunca mais. Esses são pilares que teremos de estar vigilantes para que não aconteça nova ditadura nesse país e que se evite tanto derramento de sangue, como a que aconteceu nas cidades brasileiras, como aconteceu com nossa comunidade. Uma comunidade rural que já mais tinha visto uma farda do exército, jamais tinha visto um helicóptero, um avião. Isso tudo foi usado e foi estarrecedor o resultado dessa operação.”

  

- Ocupação Manuel Congo – (ocupação organizada pelo Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM). Existe e resste há 11 anos no centro do Rio Janeiro):

“Nós, como muitos dos 7 milhões de trabalhadores e trabalhadoras desse Brasil que não têm casa, resolvemos lutar. Primeiro, ocupamos o Cine Vitória e por último o prédio do INSS que foi transformado em nossa moradia. Onze anos depois, permanecemos num desafio constante. . Estamos no corredor do Capital Financeiro do Rio de Janeiro, ao lado da Câmera dos Vereadores. Temos o desafio da manutenção e da sustentabilidade de cada morador. Somos 42 famílias, que ganham de zero a 3 salários-mínimos e é um desafio manter condomínio, tudo que se deve manter numa cidade formal. Esse tem sido nosso maior desafio. Essa luta não é só do Movimento Nacional dos Sem-Teto. É de várias órganizações dos direitos humanos nessa cidade que acredita na transformação, na implementação da função social da propriedade”, afirmou uma representante da Ocupação.

 

- Rute Fiúza – (mãe de David Fiúza, adolescente de 16 anos morto e desaparecido no Bairro São Cristóvão, em Salvador/BA. Antes do seu desaparecimento em 2014, foi violentamente abordado por policiais militares da PETO (Pelotão de Emprego Tático Operacional) e da RONDESP (Rondas Especiais). Policiais militares amarraram as mãos e os pés de David Fiúza, o encapuzaram e depois o jogaram no porta-malas de um carro descaracterizado. Rute Fiúza tem sido ameaçada):

“Essa homenagem não é minha, dedico-a a todas as mães que tiveram seus filhos violentados pelo Estado. Logo quando soube (da homenagem), achei que não era merecedora. Quando comecei a pesquisar as referências da Medalha Chico Mendes, pensei ´não sou eu, são muitas mães que estou nesse momento representando. Tantos desaparecidos’. Com tantas dores, é importante que a gente não perca o afeto e o amor. Tem tantas coisas boas, tantas pessoas boas nesse mundo. Tantas coisas que podemos conquistar, tantos frutos do que colhemos, que ainda vão nascer. Esse é um momento de dizer a eles (os desparecidos) como foram importantes”.

Rute citou, ao final de seu pronunciamento, o nome de diversos desaparecidos, vítimas da violência do estado, nas favelas e periferias da Bahia, do Sergipe, do Ceará e do Rio de Janeiro. Familiares da vítimas estiveram presentes no evento.

 

Milagro Sala – (indígena, líder comunitária e presa política da Argentina. Encontra-se encarcerada desde janeiro de 2016. É uma dos(as) sete presos(as) políticos(as) do governo Macri – dos sete presos(as) políticos(as), cinco são mulheres).

“Fiquei muito honrado quando Milagro Salas me pediu para estar aqui e receber esta Medalha. Honrado e ao mesmo tempo frustrado. Honrado por ser um reconhecimento importante, que Milagro aceita, agradece e eu levo. Frustrado porque ela não pode estar aqui. Ela é um dos resultados do governo de Maurício Macri. Ele foi eleito em dezembro e ela presa em janeiro. Milagro é uma mulher excepcional, uma pessoa formidável, uma trajetória que deveria ser reconhecida no Brasil. Além de ter revolucionado o Jujuy, uma das províncias mais pobres da Argentina e onde estão concentradas algumas das maiores fortunas da Argentina, ela ousou resistir, lutar e mudar. Liberdade para Milagro”, declarou o jornalista Eric Nepomuceno. Um vídeo de agradecimento gravado pela ativista no presídio, onde se encontra, foi exibido no evento.

 

 

- Casa Nem – (Acolhimento e apoio a transexuais, travestis e transgêneros em situação de rua – espaço de sobrevivência, luta e resistência das comunidades LGBTQIs. A casa é reconhecida também por ter um projeto de curso comunitário, o PreparaNem, que tem aprovado seus(as) participantes trans no ENEM):

 

“A Casa Nem é um quilombo urbano, onde recebemos, auxiliamos e podemos salvar vidas. É um espaço de resistência na cidade do Rio de Janeiro, que já se espalhou pelo Brasil. Hoje, tem mais de dez casas semelhantes no país afora. Precisamos ainda de espaço como esses para acolher os filhos dessa sociedade que são rejeitados e assassinados a todo momento. Mais de 177 travestis e transexuais foram assassinados no ano passado por crime de ódio. Para que Casas Nem não sejam mais necessárias essas lutas têm que contar com todas as vozes: de travestis, transexuais e transgêneros, de gays, lésbicas, bixessuais, intersexuais, pessoas esquecidas dessa sociedade, pessoas que são assassinadas todos os dias. Assim como Marielle, que era uma mulher negra, bisexual e isso tem que ser lembrado.” Indianara Siqueira, idealizadora do projeto Prepara Nem.

 

Com colaboração do Instituto Helena Greco